por Alexsandro M. Medeiros
lattes.cnpq.br/6947356140810110
postado em: set. 2026
Michel Serres (1930 – 2019) foi um filósofo francês conhecido por sua obra O Contrato Natural, publicada em 1990. Mas a questão da relação homem-natureza, tema de O Contrato Natural, não foi a sua única preocupação. Influenciado pelo fato de que sua infância e juventude foi marcada por intensos períodos de conflitos e guerras, ele também se interessou pela questão da violência. Tais experiências foram tão marcantes que, apesar de ter servido na marinha francesa, “dela se demitiu por causa dos canhões e torpedos. Ele diz que, nas sessões de tiro, no exército, sempre agiu de um modo que a sua arma, mesmo estando em perfeito estado, travava, nunca apertando o gatilho” (Lima, 2012, p. 50). A obra O Parasita é onde ele se detém no problema da violência e da mudança de meios na perpetuação da barbárie.
A experiência de Hiroshima foi um fato decisivo em seu percurso filosófico. “Serres adverte que, depois da bomba atômica, foi necessário, colocar problemas reais à filosofia” (Lima, 2012, p. 64). Esses acontecimentos revelam a capacidade humana de extinguir a própria espécie. Com Hiroshima, a ciência se deparou de fato, e não apenas teoricamente, com o problema da ética. A ciência deixou de ser pensada como um poder desinteressado ou neutro. Não apenas a ciência, mas a própria filosofia precisa ser analisada sob tais aspectos e se debruçar sobre questões tão necessárias e urgentes e responder a perguntas como: “Como reorientar as ações humanas e frear os danos ao meio ambiente? Como pôr fim aos crimes globais e conscientes contra a humanidade?” (Lima, 2012, p. 67). Embora Serres não trate propriamente de uma ética, suas ideias trazem implícito uma ética da responsabilidade, onde deve prevalecer o respeito para com os seres humanos e não humanos tentando assegurar a existência das gerações futuras.
Serres foi aluno do filósofo francês Georges Canguilhem e teve como orientador do seu trabalho do concurso para docência que Serres prestou e passou em 1955 ninguém menos que Gaston Bachelard. Em 1968 ele obteve o título de doutor em filosofia defendendo sua tese sobre o pensamento do filósofo e matemático Gottfried Wilhelm Leibniz, intitulada Le système de Leibniz et ses modèles mathématiques (Bachelard e Canguilhem fizeram parte da banca de defesa do seu doutorado). Foi professor junto com Michel Foucault na Universidade Paris VIII (Vincennes) e ocupou a cadeira de História de Ciência na Sorbonne (Paris I). Na década de 1970 deu aulas em São Paulo, razão pela qual tinha uma grande “simpatia pelo Brasil e pelos brasileiros” (Santos, 2015, p. 239). A partir de 1984 se tornou professor da Universidade de Stanford, e foi eleito para a Academia Francesa em 1990. Nesse mesmo ano ele publica aquela que é provavelmente sua obra mais conhecida, O contrato natural, que trata da relação homem-natureza.
Em 1990, publicou a obra Le Contract Naturel, que é conhecida mundialmente [...] Nessa obra, Serres aborda de uma maneira filosófica e científica as questões relacionadas aos problemas ambientais, a relação do homem com a natureza e o futuro da humanidade, destacando a importância da questão jurídica, a questão dos direitos em relação à natureza, tentando resgatar o equilíbrio dessa relação (Lima, 2012, p. 64).
Entre 1991 a 1993 participou de uma pesquisa chamada Mission Serres onde discute temas sobre as mídias e a educação, televisão, educação à distância, tornando-se um entusiasta das novas tecnologias ao lado de figuras como Pierre Lévy. Sobre o tema da mídia televisiva publicou em 1995 o livro Mensagens à distância e passou a fazer parte do comitê diretor da TV5.
Embora tenha tido contato com grandes nomes da filosofia contemporânea como Bachelard e Foucault, Michel Serres não seguiu uma linha filosófica específica e ele mesmo dizia que o seu percurso intelectual se deu “fora das autoestradas”, ou seja, fora dos grandes caminhos abertos pelos filósofos. Em seu próprio caminho, Serres não se dedicou a um único tema, mas tratou de questões pertinentes ao seu tempo e procurou seguir uma estrada que pudesse relacionar áreas como as ciências, as artes e as humanidades.
Michel Serres fazia uma distinção entre educar (éduquer) e instruir (instruire). Esta última consiste em dar uma informação sobre um conhecimento. O que parece bastante simples. Mas instruir (passar informação sobre um conhecimento, seja ele matemático, físico, ou outro qualquer) não é educar. Educar, por outro lado, “é formar a pessoa em geral” (Serres apud Santos, 2015, p. 240). Ter informação é fácil, ainda mais hoje em dia, que a informação está ao alcance de todos através da internet. Com o advento das novas tecnologias e da internet, o filósofo francês aponta que a instrução se tornou facilmente acessível e descentralizada. E, embora sejam distintas, não pode haver educação sem instrução. “Em toda educação há a instrução, de alguma forma” (Serres apud Santos, 2015, p. 241). Mas é possível instruir sem educar.
Essa diferenciação é fundamental em sua filosofia da educação, especialmente desenvolvida em obras como Le Tiers-Instruit (O Terceiro-Instruído, 1991) e retomada em obras posteriores como Petite Poucette (Polegarzinha, 2012).
Educar (Éduquer) vai muito além do mero acúmulo de dados e informação (instrução). Educar é a formação integral do indivíduo; envolve a relação vital, corporal, ética e humana com o saber e com o mundo. Enquanto a instrução fornece o conteúdo, a educação transforma o sujeito.
A verdadeira educação é um processo de mestiçagem cultural e subjetiva. Ao entrar em contato com o diferente, a pessoa deixa de ser puramente o que era e se torna um "terceiro-instruído" (le tiers-instruit). Em O Terceiro-Instruído (Le Tiers-Instruit, 1991), ele condensa essa ideia em uma frase célebre: “Toda aprendizagem consiste numa mestiçagem”. A mestiçagem (métissage) aqui não é uma simples mistura biológica ou étnica, mas a própria essência do ato de aprender. Trata-se de educar/instruir a partir de um diálogo fecundo entre as ciências e as humanidades a fim de formar o ser humano de maneira integral. “Em outros termos, trata de levarmos a sério a noção de interdisciplinaridade entre ciências e humanidades” (Calloni; Arrial, 2013, p. 53). Uma proposta de formação interdisciplinar que deve incluir também a consciência da nossa responsabilidade pela vida, pela natureza e o planeta Terra.
Partindo da noção de contrato social, desenvolvida pelos filósofos contratualistas da modernidade, Michel Serres fala de um contrato natural e um novo pacto entre a humanidade e a Terra. O contrato social fala de um acordo estabelecido entre os homens para viver em sociedade, mas não faz nenhuma menção à natureza. “Por isso, Michel Serres, propõe uma revisão do contrato social, enfatiza que diante dos problemas socioambientais o contrato social é limitado” (Lima, 2012, p. 54). Agora precisamos de um contrato natural. As consequências de ter ignorado a natureza estão visíveis: efeito estufa, poluição, dias cada vez mais quentes, secas, queimadas, superpopulação etc. “A atmosfera da Terra correrá, então, o risco de vir a assemelhar-se à atmosfera inabitável de Vénus?” (Serres, 1990, p. 16).
O homem desenvolveu ciências e técnicas com capacidades destrutivas e, além disso, os acordos políticos modernos regulam apenas a vida entre os homens e esquecem a realidade natural que nos sustenta. Com o novo pacto que inclui também a natureza, o meio ambiente deixa de ser visto apenas como um objeto passivo de exploração e passa a ter direitos e voz nas decisões globais.
Serres analisa a situação que se desenvolveu historicamente com mais ênfase depois da revolução industrial.
[...] desde a revolução industrial que aumenta a concentração de dióxido de carbono na atmosfera, resultante da utilização de combustíveis fósseis, que se intensifica a propagação de substâncias tóxicas e de produtos acidificantes, que cresce a presença de outros gases com efeito de estufa: o sol reaquece a Terra e esta, em contrapartida, irradia para o espaço parte do calor recebido (Serres, 1990, p. 15).
Serres aposta na assinatura de um acordo, onde os homens deverão repensar a sua forma de interação com a natureza, para que não se corra o risco “de fazer a Terra ir pelos ares: por meio do tempo ou do clima entendidos como sistema global e condição geral de sobrevivência” (Serres, 1990, p. 18). E o termo “aposta” é mais do que uma simples figura de linguagem. Eis a aposta:
Se considerarmos as nossas ações inocentes e ganharmos, não ganharemos nada, a história avançará como sempre; mas se perdermos, perdemos tudo, sem estarmos preparados para qualquer possível catástrofe. Mas se, ao invés, escolhermos a nossa responsabilidade: se perdermos, não perderemos nada, mas se ganharmos, ganharemos tudo, continuando como agentes da história. Nada ou perda de um lado, ganho ou nada do outro: isso elimina toda a dúvida (Serres, 1990, p. 17).
Um acordo que seja diferente daquele estabelecido, por exemplo, com a Revolução Francesa e a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, que deixou de fora a natureza. Embora essa Declaração tenha o mérito de pretender ser universal, ela se refere apenas a universalidade humana, deixando de fora as outras espécies. Essa Declaração dá aos homens, mas apenas aos homens, o estatuto de sujeitos de direito: “a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão deu a qualquer homem, em geral, a possibilidade de aceder a esse estatuto de sujeito do direito” (Serres, 1990, p. 62). Sendo, no entanto, um acordo exclusivamente social, esse contrato se torna mortífero para a perpetuação da espécie.
No contrato natural, por outro lado, a humanidade precisa deixar de atuar como um parasita destrutivo para atuar como um parceiro simbiótico da Terra e reconhecer que os danos causados ao planeta retornam inevitavelmente contra a própria espécie humana. Serres compara a condição humana com a de um parasita que lesa o seu hospedeiro, podendo destruí-lo sem perceber. “Em O Contrato Natural, Serres pergunta-se até que ponto não seríamos parasitas da natureza em toda a sua diversidade e em nível planetário?” (Calloni; Arrial, 2013, p. 52).
Que desequilíbrios graves podemos esperar das ações parasitárias Humanas? – se interroga Serres. “[...] que mudança global devemos esperar no conjunto do clima, das nossas atividades industriais e da nossa capacidade técnica crescentes, que despejam na atmosfera milhares de toneladas de óxido de carbono e outros detritos tóxicos? (Serres, 1990, p. 43). As catástrofes ambientais tornaram-se cada vez mais frequentes e alarmantes. Para o filósofo francês, não basta apenas diminuir os impactos das ações humanas sobre o Planeta Terra, é preciso mudar de comportamento.
Podemos, decerto, atrasar os processos já lançados, legislar para se consumirem menos combustíveis fósseis, replantar em massa as florestas devastadas - tudo excelentes iniciativas, mas que, no fundo, remetem para a imagem do navio que avança a vinte e cinco nós na direção de uma rocha na qual sem dúvida embaterá, enquanto na ponte de comando o oficial de dia recomenda ao maquinista que reduza a velocidade em um décimo, sem mudar de direção (Serres, 1990, p. 54).
Precisamos “mudar a direção” de nossas ações, pois esses problemas já começaram a interferir e afetar a vida de todos os seres vivos, pondo em risco não só a qualidade de vida dos seres humanos como a própria sobrevivência das espécies humana e não humanas.
Precisamos também mudar a forma como enxergamos a natureza, pois tais problemas não podem ser entendidos isoladamente, de forma reducionista e fragmentada, porque são sistêmicos, interligados, interdependentes. Daí a necessidade de um Contrato Natural diante de tais questões. Um Contrato Natural que “postula um equilíbrio na relação do homem com a natureza, na qual esta passa a ser pensada como um sujeito de direito (algo vivo, complexo e não passivo)” (Lima, 2012, p. 12). Mudar a forma como enxergamos a natureza significa perceber o planeta Terra como um ser vivo: “e tudo o que ele contém, em sua diversidade, representa a conjugação de uma ordem em contínuo processo de desorganização, a fim de produzir sempre uma nova organização” (Calloni; Arrial, 2013, p. 52). O Contrato Natural serviria como uma espécie de simbiose, em oposição ao parasitismo. Uma simbiose em que cada um dos parceiros deve a sua vida ao outro. Devemos, portanto, “acrescentar ao contrato exclusivamente social a celebração de um contrato natural de simbiose e de reciprocidade” (Serres, 1990, p. 65). Esse contrato de simbiose define-se pela reciprocidade.
Essa mudança de direção e da forma como enxergamos a natureza implica em que os indivíduos tenham consciência da simbiose. Uma simbiose que não acontecerá de modo rápido, mas que requer tempo, esforço, aprendizado. Uma simbiose que implicará “um novo estágio da humanidade, um novo modo de pensar e estar no mundo” (Lima, 2012, p. 77).
Ameaçada de morte coletiva por suas próprias ações parasitárias, a humanidade deve pensar em um direito que estabeleça um pacto entre o homem e a natureza e assinar com o mundo um Contrato Natural que construa e coloque em prática um novo equilíbrio global.
Esse contrato acrescenta ao contrato social a celebração de um Contrato Natural de simbiose, de reciprocidade, contemplação e respeito. O direito de simbiose é definido pela reciprocidade: aquilo que a natureza dá ao homem é o que este deve dar a ela, tornada sujeito de direito, algo vivo, não passivo, com forças, interações e ligações (Cf. SERRES, 1992, p. 62). O Contrato natural reconhece as duas forças: a humana e a da natureza (Lima, 2012, p. 78).
Este contrato natural impõe a necessidade de um direito ambiental: uma legislação que possa proteger a natureza das ações devastadoras do ser humano; instrumento jurídico para a aplicação da legislação ambiental. Um instrumento jurídico que, além de reconhecer crimes contra a humanidade, reconheça também crimes contra o Mundo.
Se, ao olharmos para o passado, percebemos de forma envergonhada que apenas tardiamente houve uma universalização progressiva do direito de se tornar sujeito de direito, ou seja, escravos, mulheres, crianças nem sempre foram “sujeitos de direito”, no futuro, a humanidade terá a mesma vergonha ao olhar para uma época, a nossa época, em que a natureza não era vista como um sujeito de direito.
O filósofo francês define assim o contrato natural:
Por mim, passarei a entender por contrato natural, em primeiro lugar, o reconhecimento, exatamente metafísico, por parte de cada coletividade de que vive e trabalha no mesmo mundo global de todas as outras; não só cada coletividade política associada por um contrato social, mas também qualquer um dos coletivos, militar, comercial, religioso, industrial..., associado por um contrato de direito e ainda o coletivo técnico associado pelo contrato científico. Chamo metafísico e natural a este contrato, porque vai além das limitações vulgares das diversas especialidades locais e, em particular, da física. Revela-se tão global como o contrato social, introduzindo-o, de alguma forma, no mundo e é tão mundial como o contrato científico que, de certo modo, faz entrar este na história (Serres, 1990, p. 76).
Finalmente, cabe algumas reflexões seguidas de alguns questionamentos.
A terra já existiu sem a humanidade e poderá voltar a existir sem ela, mas, e a humanidade, poderá viver sem a Terra? Talvez essa pergunta justifique o interesse pela corrida espacial e até o interesse em colonizar Marte. Mas esse esforço que, provavelmente, contemplará uma parte pequena da humanidade, só reforça ainda mais a ideia de que a humanidade não poderá sobreviver no planeta Terra, se a tiver destruído. E a principal reflexão que devemos extrair desse ponto é que a humanidade precisa sair de sua posição narcisista de se perceber como centro do mundo. Uma posição em que nós, “homens, estamos no centro de um sistema de coisas que gravitam à nossa volta, umbigos do universo, donos e possuidores da natureza” (Serres, 1990, p. 58). É necessário que haja uma mudança de perspectiva. “Por isso, é necessário colocar bem as coisas no centro e nós na sua periferia, ou melhor ainda, elas por toda a parte e nós no seu seio” (Serres, 1990, p. 58). Estamos diante de uma bifurcação: ou morte e destruição ou simbiose e vida.
Outro ponto de reflexão é que o contrato que deve ser estabelecido com a natureza vai muito além de uma questão meramente racional. É preciso sentir que nós fazemos parte do planeta. Por isso o filósofo francês fala do amor, porque sem o amor não há nenhum elo ou aliança. O amor é a principal lei e não existe nada de mais real do que o amor. A primeira lei já foi dita: “amai-vos uns aos outros” (Serres, 1990, p. 80). A essa lei é preciso acrescentar uma outra: o amor a Terra. “Assim, a solução para salvaguardar o planeta não está em essência nas ciências nem na política, mas no amor” (Lima, 2012, p. 80). Eis a segunda lei: que amemos o mundo.
Estas duas leis constituem, portanto, apenas uma, que se confunde com a justiça, natural e humana ao mesmo tempo, e que nos exigem a todos que passemos do local ao global, caminho difícil e mal traçado, mas que devemos abrir. Nunca esqueças o sítio de onde partes, mas abandona-o e procura o universal. Ama o elo que une a tua terra à Terra e faz com que se aproximem o próximo e o estranho (Serres, 1990, p. 82).
CALLONI, Humberto; ARRIAL, Luciana Roso de. Contribuições de Michel Serres para os Fundamentos da Educação Ambiental. AMBIENTE & EDUCAÇÃO, vol. 18(1), p. 43-57, 2013. Acesso em: 07 set. 2026.
LIMA, Mércia Manuela de. O Contrato Natural em Michel Serres: Possibilidades e Limites. 2012. 112p. Dissertação (Mestrado em Filosofia), Programa de Pós-Graduação em Filosofia, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2012.
SANTOS, Maria Emanuela Esteves dos. Educação e Contemporaneidade em Michel Serres. Pro-Posições, v. 26, n. 1, p. 239-257, jan./abr. 2015. Acesso em: 07 set. 2026.
SERRES, Michel. O Contrato Natural. Lisboa: Instituto Piaget, 1990.