DO PANÓPTICO AO “PANÓPTICO DIGITAL” E A SOCIEDADE DE CONTROLE
DO PANÓPTICO AO “PANÓPTICO DIGITAL” E A SOCIEDADE DE CONTROLE
por Alexsandro M. Medeiros
lattes.cnpq.br/6947356140810110
postado em out. 2026
O modelo que o filósofo francês Michel Foucault chamou de panopticista, é um conceito utilizado para explicar como funciona o poder e o controle na sociedade disciplinar cujo objetivo é obter a vigilância dos sujeitos: “vigiar, observar constantemente com o intuito de disciplinar e manter a ordem” (Araújo, et. al., 2016, p. 34). Foucault desenvolveu essa ideia principalmente na obra Vigiar e Punir, de 1975. A obra é composta de quatro partes: Suplício, Punição, Disciplina e Prisão; e é dedicada à análise da vigilância e da punição presente em vários âmbitos estatais, como prisões ou hospitais. O conceito de Panóptico aparece no capítulo III da Terceira Parte, intitulado “O Panoptismo”.
Foucault toma o projeto arquitetônico da prisão ideal do filósofo e jurista Jeremy Bentham (o Panopticon) como uma metáfora central para explicar a sociedade disciplinar. O termo Panopticon foi cunhado por Bentham unindo dois vocábulos do grego antigo: πᾶν (pan): tudo, todo; ὀπτικός (optikos) / ὄψις (opsis): relativo à visão, aos olhos.
Trata-se do mesmo epíteto atribuído na mitologia grega ao gigante Argos Panoptes (Ἄργος Πανόπτης), o “vigilante de cem olhos” nomeado pela deusa Hera para vigiar Io (uma das inúmeras ninfas amantes de Zeus). “Hera gostava tanto de Argos que, quando morto pelo infiel Zeus, foi transformado em pavão e seus cem olhos foram para a cauda da ave” (Chevalier; Gheerbrant, 2007, p. 693 apud Oliveira; Carneiro, 2016, p. 109). A alcunha Panoptes significava literalmente “Aquele que tudo vê” ou “O Onividente”. “Na mitologia grega Argos Panoptes (Argos, o que tudo vê) era um gigante usado pelos deuses como guarda, por ter cem olhos, dos quais cinquenta estavam sempre abertos e cinquenta fechados, dormindo” (Dickens, 2012 apud Oliveira; Carneiro, 2016, p. 109). Bentham resgatou a ideia da vigilância ininterrupta e onipresente representada pelo mito. “Esta breve digressão acerca da natureza do vocábulo panóptico serve para ilustrar a ideia associada ao entendimento de que existe uma vigilância ininterrupta do observado” (Oliveira; Carneiro, 2016, p. 110).
Ao retomar o conceito de panóptico, Foucault trata como uma espécie de torre central cercada por uma construção circular dividida em celas. O observador na torre vê todos os detentos, mas os detentos não veem o observador. Nessa estrutura o indivíduo sabe que pode estar sendo visto a qualquer momento, mas não consegue confirmar quando, pela forma como está estabelecido o mecanismo de visibilidade. Por causa dessa estrutura de vigilância, ocorre um efeito disciplinar: o indivíduo torna-se o seu próprio carcereiro, ajustando seu comportamento e autopoliciando-se voluntariamente. O Panóptico é “um modelo desses instrumentos pelo qual se pode visualizar e controlar todos em uma única pessoa, a qual não se sabe, necessariamente, que está sendo controlada” (Caprioli, et. al., 2017, p. 305). Esse é o efeito mais importante do Panóptico: vigiar e controlar. O Panóptico de Bentham e Foucault transforma a figura mítica de Argos Panoptes – a criatura fantástica com olhos espalhados pelo corpo – em uma técnica secular, impessoal e espacial de vigilância e visibilidade assimétrica.
Para Foucault, o panóptico deixa de ser apenas um projeto arquitetônico de prisão e se torna a fórmula geral de uma tecnologia de poder aplicada a toda a sociedade moderna – replicada em escolas, hospitais, fábricas e casernas para adestrar corpos, aumentar a produtividade e garantir a docilidade social. “Este poder foi instaurado em penitenciárias, casas de correção, escolas, hospitais, fábricas, asilos psiquiátricos, realizando uma vigilância constante de forma individual, criando assim o poder controlador da sociedade” (Araújo, et. al., 2016, p. 33).
Em 1949, George Orwell publicou um romance distópico intitulado “1984”. Este livro foi o responsável por criar a figura que, posteriormente, seria popularizado através do reality show, o Big Brother. A história se passa na sociedade de Oceânia e retrata um regime totalitário liderado pelo Partido e pela figura onipresente do Grande Irmão (Big Brother). Big Brother é “o nome dado a uma entidade onipresente que, através das horripilantes teletelas, consegue vigiar todos os habitantes da Oceânia” (Araújo, et. al., 2016, p. 35). Na sociedade de Oceânia, o controle sobre os indivíduos é exercido por meio do monitoramento ostensivo (pelas teletelas), da manipulação da linguagem (Novafala) e do cancelamento do pensamento crítico (Novapensamento).
Tanto em 1984 quanto no Panóptico de Foucault, o princípio fundamental é a possibilidade constante de observação. O fato de o indivíduo não saber o momento exato em que está sendo vigiado o força a agir como se estivesse sob vigilância contínua, moldando seu comportamento e eliminando a noção de privacidade.
Quando transportamos essa reflexão do panóptico foucaultiano para as redes sociais e plataformas digitais, a lógica da vigilância ganha outros contornos, isso porque, se no panóptico foucaultiano a vigilância e visibilidade era uma imposição coercitiva, com as redes sociais, a visibilidade é desejada, buscada e recompensada (através de curtidas, engajamento e alcance), ou seja, as pessoas expõem voluntariamente sua intimidade, rotina e opiniões em troca de validação social e capital simbólico.
[...] no ambiente virtual ocorre um ato voluntário da pessoa. Ou seja, enquanto no “panoptismo tradicional”, a pessoa é monitorada a contragosto, embora tenha a sua integridade (teoricamente) assegurada pelo agente monitorador, no contexto das tecnologias da informação, as pessoas agem de modo deliberado, voluntariamente oferecendo suas informações pessoais, vulnerabilizando a sua integridade que passa a ser passível de manipulação pelo(s) agente(s) responsável(is) pelo seu monitoramento (Oliveira; Carneiro, 2016, p. 118).
No panóptico foucaultiano, poucos observam muitos (o guarda na torre vigia os prisioneiros). No Panóptico Digital, muitos observam muitos e muitos observam poucos (celebridades e influenciadores). Nas mídias digitais, a vigilância deixa de vir apenas “de cima” (do Estado ou da corporação) e passa a ocorrer entre os próprios usuários.
O Panóptico Digital não altera apenas o modelo de vigilância e visibilidade, mas também as formas de controle. A ideia de uma “sociedade de controle” não foi formulada explicitamente por Foucault, mas sim, por Gilles Deleuze, no seu ensaio de 1990, "Post-scriptum sobre as Sociedades de Controle" (Post-scriptum sur les sociétés de contrôle). No entanto, as raízes teóricas dessa ideia surgem no próprio trabalho de Michel Foucault. Foucault focou predominantemente na Sociedade Disciplinar (séculos XVIII ao XX), caracterizada pelo adestramento dos corpos dentro de meios de confinamento fechados (família, escola, fábrica, hospital, prisão).
Foi no final dos anos 1970 – especialmente em seus cursos no Collège de France (Em Defesa da Sociedade e Nascimento da Biopolítica) que o foco do poder deixa de ser apenas a disciplina do corpo individual no espaço fechado e passa a ser a gestão das populações em campo aberto, dando origem ao conceito de biopolítica e biopoder.
Deleuze sistematizou e deu nome à essa transformação com o conceito de Sociedade de Controle. A Sociedade de Controle é o modelo de organização social que sucede a Sociedade Disciplinar de Foucault. Enquanto a disciplina operava no século XIX e meados do século XX através do confinamento em espaços fechados (escola, fábrica, hospital, prisão), o controle contemporâneo funciona em campo aberto, de forma contínua e flexível. Para Deleuze, o controle não se exerce mais trancando as pessoas em instituições, mas monitorando e regulando seus fluxos de informação, consumo e circulação em tempo real.
As mídias (em especial as digitais) são como um dispositivo panopticista e um aprofundamento da sociedade da vigilância foucaultiana em uma sociedade de controle, guiada por processos de rastreamento que operam a partir de um mundo de códigos invisível e fluxos de dados oriundos de bases computadorizadas.
Assim como o prisioneiro ajusta seu comportamento para evitar a punição, o usuário das redes sociais adequa sua linguagem, sua imagem e discurso moldado por algoritmos. Aqui é o algoritmo que atua como a torre invisível para evitar o cancelamento ou o linchamento virtual por parte dos outros usuários (a vigilância entre pares). O observador contemporâneo não é um guarda humano na torre, mas uma infraestrutura de algoritmos, rastreadores e inteligência artificial.
No panóptico digital, a coleta de metadados, localização, hábitos de navegação e preferências ocorre de forma silenciosa (em segundo plano), tornando a vigilância imperceptível e cotidiana.
Redes sociais como TikTok e o Instagram, que se mostram aparentemente como espaços de liberdade para que seus usuários se expressem são, na verdade, espaços que criam a ilusão de que seus usuários podem pensar por si mesmo, quando na verdade estão sob o domínio e controle dos algoritmos e, por isso, como destacam Oliveira e Carneiro (2016, p. 116): “representam o mais atual modelo panóptico”. O feed do usuário é alimentado por mecanismos de recomendação que moldam desejos, bolhas de informação e subjetividades, exercendo um poder produtivo (fomenta comportamentos) e não apenas repressivo. Nesse espaço virtual somos monitorados por meio das informações que nós mesmos postamos.
O mundo virtual é um panóptico de dimensões impensáveis a cognição ulterior de filósofos como Bentham ou Foucault [...] Ciente de que está sendo monitorado, sob constante vigília dos seus pares, os indivíduos alimentam a força do ambiente virtual e desvelam o seu próprio ser. Não se trata mais do Estado, do governo ou das instituições (públicas ou privadas), o controle é exercido pelo cidadão comum, que monitora e também é monitorado, municiando as instituições que se beneficiam dos resultados auferidos pelos pares, que se revezam na tarefa de descobrir, controlar e limitar (a existência de) o outro (Oliveira; Carneiro, 2016, p. 117).
Panóptico Digital. Imagem gerada por IA. Gemini Image.
O que aparenta ser uma manifestação de liberdade é, na verdade, um disciplinamento às regras de indexação dos algoritmos, em busca de ver e ser visto. Uma autoexposição que se torna uma moeda de troca em busca de inserção social, fomentando um constante e explícito “show do eu”. Poderíamos então substituir o adágio cartesiano, “penso, logo, existo” (cogito, ergo, sum), para, “sou visto, logo sou” (Je suis vu, donc je suis). No século XX, foi o filósofo francês Jean-Paul Sartre quem sugeriu essa modificação, antes mesmo desse imenso desenvolvimento tecnológico, em um outro contexto. Sartre está se referindo ao Outro, aquele que me olha, que pode muito bem ser aplicado nesse contexto das redes sociais. Existe uma relação entre o eu e outro que aparece quando acontece o olhar do outro sobre mim. O olhar que o outro me lança dá a certeza da minha existência. A consciência da própria existência não vem apenas do pensamento solitário (como no cogito cartesiano), mas da experiência inevitável de ser apreendido pela consciência alheia. Essa ideia sintetiza o conceito de “ser-para-outro” (être-pour-autrui) desenvolvido fundamentalmente em O Ser e o Nada.
Além do contexto das redes sociais, cabe mencionar uma outra forma de vigilância e, quem sabe até, de controle. Trata-se de ferramentas como Google Street View e o Google Earth. Essas ferramentas abrem “novos canais de observação e monitoramento capazes de oferecer novas formas de dominação e vigilância dos indivíduos” (Oliveira; Carneiro, 2016, p. 119). O Google mapeia a superfície do planeta e as ruas das cidades. O indivíduo no chão não sabe exatamente quando o carro do Street View ou o satélite passou, nem quando suas imagens serão atualizadas. A corporação retém o mapa e o poder de exibição. O fato de fachadas de casas, carros e pessoas poderem ser vasculhados por qualquer um a qualquer momento estende a visibilidade para além dos muros das instituições. Historicamente, a cartografia detalhada sempre foi um instrumento de controle do Estado. O Google universalizou esse nível de detalhe, criando um repositório global onde o espaço urbano se torna totalmente legível e transparente. No Street View e Earth, não é apenas o "Big Brother" que olha. Os próprios indivíduos usam as ferramentas para observar vizinhos, estabelecimentos e locais de interesse. É o "olhar de todos sobre todos". O objetivo do Google com a extração de dados, monetização e consumo, conduz a uma vigilância de dados (dataveillance) integrada ao que poderíamos chamar de capitalismo de vigilância (termo formulado pela socióloga e professora de Harvard Shoshana Zuboff no seu livro A Era do Capitalismo de Vigilância, onde a autora descreve uma nova ordem econômica onde o capitalismo de mercado tem como lógica a extração e monetização da própria experiência humana como matéria-prima comportamental).
A analogia com o panóptico foucaultiano fica muito forte quando o Google Earth/Street View é articulado com outras camadas de controle digital: integração de imagens com reconhecimento facial em tempo real via câmeras públicas/privadas; geolocalização contínua via smartphones (GPS e Wi-Fi); cruzamento de imagens de satélite para fiscalização (ex.: identificação de piscinas ou construções não declaradas por prefeituras). Nesses casos, a representação espacial do Google deixa de ser um mero mapa interativo e se torna a base visual de um panóptico digital integrado.
ARAÚJO, Gabriel Teixeira de [et. al.]. PANOPTISMO: vigilância cotidiana. Jornal Eletrônico Faculdades Integradas Vianna Júnior, v. 8, n. Especial 11, p. 28-38, dez. 2016. Acesso em: 04 out. 2026.
CAPRIOLI, Mariana da Silva [et. al.]. Foucault: Poder, Vigilância, Disciplina e Punição. Uma Análise do Conceito de Panóptico em Obra Narrativa de Ficção. Informação & Informação, Londrina, v. 22, n. 3, p. 297-319, set./out. 2017. Acesso em: 03 out. 2026.
CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos. Rio de Janeiro: Jose Olympio, 2007.
OLIVEIRA, Eduardo Chagas; CARNEIRO, Ivana Libertadoira Borges. Sobre o Caráter Persuasivo da Estrutura Panóptica: Bentham, Foucault e As Novas Tecnologias. Revista Ideação, n. 33, v. 1, p. 101-125, jan./jun. 2016. Acesso em: 07 out. 2026.