CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA DO AGIR COMUNICATIVO PARA A EDUCOMUNICAÇÃO
CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA DO AGIR COMUNICATIVO PARA A EDUCOMUNICAÇÃO
TRABALHO APRESENTADO no XI ENCONTRO BRASILEIRO de EDUCOMUNICAÇÃO, em outubro de 2026
por Alexsandro Melo Medeiros
RESUMO EXPANDIDO DA COMUNICAÇÃO ORAL
Introdução
Pensar a relação entre a Teoria do Agir Comunicativo (TAC) de Jürgen Habermas e a Educomunicação é encontrar um ponto de convergência no campo da filosofia da linguagem onde a comunicação não é apenas um instrumento para transmitir informações, mas o próprio meio pelo qual construímos o conhecimento.
A racionalidade comunicativa habermasiana pode contribuir tanto na perspectiva de uma compreensão da comunicação como o fundamento de toda a interação humana quanto no nível da ciência empírica. A TAC oferece o estofo epistemológico para pensar tanto o ecossistema comunicativo quanto a forma como o conhecimento é validado e construído.
De um lado, considerando a crítica aos modelos tradicionais de comunicação e educação, a Educomunicação, ao adotar como horizonte epistemológico a TAC, pode ser pensada como um processo onde todos os sujeitos têm direito à fala, e o objetivo final é a compreensão mútua e a corresponsabilidade pelo conhecimento criado. Por outro lado, ao propor uma virada epistemológica para a razão comunicativa, a teoria habermasiana questiona o modelo epistemológico que pensa o conhecimento sempre como um “Eu” (monolítico, isolado) que olha para o mundo e tenta explicar um “Objeto” (a realidade), o que tem implicações diretas na análise do fenômeno educomunicativo. São estes dois aspectos que pretendemos abordar neste trabalho.
A Mudança de Paradigma: virada Epistemológica
Na epistemologia clássica, o conhecimento é visto a partir da perspectiva de um sujeito que conhece e um objeto a ser conhecido. Para entendermos o tamanho da ruptura promovida por Habermas precisamos ter em mente, ainda que de forma breve, o modelo epistemológico onde o ato de conhecer é um evento que envolve o “Eu” cognoscente e a Realidade. É essa a visão que tem moldado a ciência, a filosofia e a epistemologia desde o século XVII. O Sujeito (o “Eu” cognoscente) é a mente consciente, dotada de razão, que se isola para pensar ou observar. O Objeto (a Realidade) é a coisa a ser investigada, o mundo exterior, a natureza, os fenômenos. O objeto é essencialmente passivo; ele não fala, não reage, apenas “está lá” para ser desvelado, medido e categorizado. O sujeito olha para o objeto, extrai dele uma representação mental e dita a verdade sobre ele.
Habermas foi um dos responsáveis por aprofundar o debate acerca dos modelos explicativos nas ciências sociais[i] argumentando que a ciência social não pode isolar o sujeito (o pesquisador) do objeto (a sociedade). E ao defender a ideia de que a sociedade é mediada pela linguagem ele começou a pavimentar o caminho para aquela que seria a sua obra-prima futura: a teoria do agir comunicativo.
Para superar as dificuldades epistemológicas que o modelo das ciências empírico-analíticas acarreta, Habermas procurou fundamentar o conhecimento com base na filosofia da linguagem, propondo uma virada epistemológica em que o conhecimento não é algo que um sujeito isolado descobre e impõe aos outros, mas algo que surge da intersubjetividade – o entendimento mútuo entre sujeitos livres e iguais (razão comunicativa).
Está aberto o caminho para que Habermas proponha o abandono do paradigma de uma filosofia da consciência e da razão monológica, para fundar o paradigma da razão comunicativa. Ao contrário da razão prática centrada na consciência, a razão comunicativa não se prende a nenhum ator singular e ocorre através do meio linguístico. Habermas (2000; 2012a; 2012b) é enfático ao afirmar o esgotamento do paradigma da consciência.
Todavia, conforme pondera Pitano (2008, p. 119), isto não quer dizer “que Habermas [...] está abrindo mão do papel da subjetividade, apenas a está colocando em outros termos, a intersubjetividade”. Habermas estabeleceu “um novo reino da intersubjetividade” (Melo Neto, 2011, p. 69). Em outras palavras, um modelo de ação orientada para o entendimento não privilegia a atitude do sujeito cognoscente que se dirige a si mesmo, mas, sim, a atitude intersubjetiva de sujeitos que buscam se entenderem sobre algo no mundo. “Nesse caso, o ego encontra-se em uma relação interpessoal que lhe permite, da perspectiva do alter, referir-se a si mesmo como participante de uma interação” (Habermas, 2000, p. 415).
No paradigma da razão comunicativa, que concebe o saber como algo mediado pela comunicação e pela linguagem, a racionalidade da ação não reside no sujeito isolado, mas se manifesta na relação intersubjetiva e “a racionalidade encontra sua medida na capacidade de os participantes responsáveis da interação orientarem-se pelas pretensões de validade que estão assentadas no reconhecimento intersubjetivo” (Habermas, 2000, p. 437).
Aplicação no campo da Educomunicação
A virada epistemológica promovida pela TAC tem implicações profundas para se pensar a Educomunicação. Assim como as ciências sociais, a Educomunicação deve problematizar a ideia de um “Eu” isolado e neutro. Mas essas implicações não se limitam apenas ao aspecto epistemológico de validação do conhecimento científico, mas tem consequências também na esfera da comunicação a partir de uma compreensão da comunicação como o fundamento de toda a interação humana. Ela desloca o eixo da comunicação linear (emissor/receptor) para consolidar ecossistemas comunicativos abertos. Temos aqui uma consequência direta na forma como devemos pensar até mesmo as relações sociais, o que pode contribuir para a construção de ecossistemas comunicativos (Soares, 2011).
Com o novo paradigma da racionalidade comunicativa, as relações se estabelecem de forma intersubjetiva, entre sujeitos que falam e atuam, na busca por um entendimento. No mesmo sentido em que a proposta da Educomunicação, baseada em ecossistemas comunicativos, tem como uma de suas características a horizontalidade do diálogo, inspirado na teoria dialógica de Paulo Freire (1987), onde busca-se um espaço em que todos os sujeitos tenham voz, escuta ativa e poder de expressão, entendendo os ecossistemas comunicativos como espaços
abertos e dialógicos, favorecedores da aprendizagem colaborativa a partir do exercício da liberdade de expressão, mediante o acesso e a inserção crítica e autônoma dos sujeitos e suas comunidades na sociedade da comunicação, tendo como meta a prática cidadã em todos os campos da intervenção humana na realidade social (SOARES, 2009, p. 202, tradução nossa).
O que a Educomunicação preconiza é um tipo de gestão da comunicação que seja: aberta, democrática e participativa dos fluxos comunicacionais. Uma proposta de comunicação em uma interface com a educação, que deve enriquecer as possibilidades comunicacionais, dialógicas e de construção de saberes coletivos. “A proposta entre comunicação e educação é de uma relação dialógica em que os educandos e os educadores sejam agentes ativos no processo de aprendizagem transformando constantemente a realidade” (Barbosa, 2020, p. 180).
Se a TAC oferece a sustentação epistemológica de que a razão e o conhecimento nascem do agir comunicativo, a Educomunicação materializa essa teoria em uma práxis, transformando os meios de educação e comunicação em um espaço vivo de ação comunicativa. Habermas fornece a base epistemológica (o “porquê” e o “como” o diálogo funciona na razão humana), enquanto a Educomunicação oferece a práxis concreta que transforma a teoria em ecossistemas reais de comunicação e aprendizagem.
Considerações Finais
A Teoria do Agir Comunicativo, de Jürgen Habermas, operou uma das mais profundas reconfigurações metodológicas das ciências sociais no século XX. Essa virada epistemológica tem consequências no campo da Educomunicação, como procuramos descrever ao longo do texto e suas implicações podem ser analisadas tanto do ponto de vista de uma fundamentação teórica para a validação do conhecimento quanto no fortalecimento do processo de democratização da comunicação e emancipação humana.
A Educomunicação, ao investigar a relação entre comunicação e educação, propõe o protagonismo e a construção de ecossistemas comunicativos dialógicos e utiliza a pedagogia dialógica para promover a emancipação onde a comunicação na educação não é vista apenas como mera transmissão de conteúdos, mas como a criação de ambientes abertos, democráticos e participativos (os ecossistemas comunicativos).
A Educomunicação materializa essa teoria, do agir comunicativo, através de uma práxis social e, ao ensinar os sujeitos a lidar de forma crítica com os meios de comunicação e a produzir sua própria comunicação, ela está ativando a competência comunicativa que Habermas aponta como essencial para as relações sociais. Educomunicar é criar as condições práticas para que o agir comunicativo aconteça.
[i] Em 1961, em Tübingen, na Alemanha, aconteceu um famoso confronto intelectual, no congresso da Associação de Sociologia Alemã, sobre a lógica das ciências sociais que opôs o racionalismo crítico de Karl Popper à dialética da Escola de Frankfurt, representada por Theodor Adorno. Esse confronto ficou conhecido como a Disputa do Positivismo na Sociologia Alemã (Pugliesi, 2014; Gama, 2020). Como na época do congresso, Habermas era ainda apenas um jovem assistente de Theodor Adorno, ele não participou diretamente do debate, mas assumiu o papel de principal defensor da Escola de Frankfurt nas publicações subsequentes.
Referências
BARBOSA, Ana Karoline. Cidadania através da Educação e Comunicação. Puçá: Revista de Comunicação e Cultura na Amazônia, Belém, v. 6, n. 1, p. 179-192, 2020. Disponível em: <https://estacio.periodicoscientificos.com.br/index.php/puca/article/view/2819>. Acesso em: 16 jul. 2026.
FONTES, Paulo Vitorino. A Reflexão Epistemológica de Habermas e a sua Proposta de Racionalidade Comunicativa. Griot: Revista de Filosofia, Amargosa - BA, v. 20, n. 1, p. 277-288, fev., 2020. Disponível em: <https://dialnet.unirioja.es/servlet/articulo?codigo=8122592>. Acesso em: 28 jun. 2026.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 11. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
GAMA, Hélio Fernando Lôbo Nogueira da. A Disputa do Positivismo e da Dialética na Sociologia Alemã: Algumas Considerações. In: FERREIRA, Gustavo Henrique Cepolini (org.). As ciências humanas como protagonistas no mundo atual [recurso
eletrônico]. Ponta Grossa, PR: Atena, 2020, p. 253-265.
HABERMAS, Jürgen. Uma outra via para sair da filosofia do sujeito – Razão comunicativa vs. Razão centrada no sujeito. In: ____. O Discurso Filosófico da Modernidade: doze lições. São Paulo: Martins Fontes, 2000, p. 411-454.
____. Teoria do Agir Comunicativo: racionalidade da ação e racionalização social. Tradução Paulo Astor Soethe. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2012a. vol. 1
____. Teoria do Agir Comunicativo: sobre a crítica da razão funcionalista. Tradução Flávio Beno Siebeneichler. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2012b. vol. 2
MELO NETO, José Francisco. Diálogo em Educação: Platão, Habermas e Paulo Freire. João Pessoa: Editoria Universitária da UFPB, 2011.
PITANO, Sandro de Castro. Jürgen Habermas, Paulo Freire e a crítica à cidadania como horizonte educacional: uma proposta de revivificação da Educação Popular ancorada no conceito de sujeito social. Tese (Doutorado em Educação). Programa de Pós-Graduação em Educação. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2008.
PUGLIESI, Márcio (org.). A disputa do positivismo na sociologia alemã. Organização, coordenação e prefácio à edição brasileira de Márcio Pugliesi; tradução Ana Laura ... [et al.]. São Paulo: Ícone, 2014. (Coleção Fundamentos do Direito).
SOARES, Ismar de Oliveira. Educomunicação: o conceito, o profissional, a aplicação: contribuições para a reforma do ensino médio. São Paulo: Paulinas, 2011. (Coleção educomunicação).
SOARES, Ismar de Oliveira. Caminos de La Educomunicacíon: Utopias, Confrontaciones, Reconocimentos. Nómadas, Bogotá, n. 30, p. 194-207, abr., 2009. Disponível em: <http://www.scielo.org.co/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0121-75502009000100015>. Acesso em: 28 jun. 2026.